6. ARTES E ESPETCULOS 6.2.13

1. ARTE  TERRA DE GIGANTES
2. CINEMA  CLICH RENOVADO
3. LIVROS  O HOMEM CERTO, AT NO LUGAR ERRADO
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. J.R. GUZZO  UM CASO PERDIDO

1. ARTE  TERRA DE GIGANTES
Como tudo o que diz respeito  potncia econmica, a arte contempornea da China tem dois nomes grandes. Mostras no Brasil revelam por que um deles joga a favor  e o outro vai contra a ditadura do pas.
MARCELO MARTHE

     Uma atividade que demandava a infinita pacincia chinesa preencheu uma tarde no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Braslia, na semana passada. O artista plstico Cai Guo-Qiang e suas assistentes espalhavam montinhos de plvora sobre uma superfcie de papel de 8 metros de comprimento estendida no cho. Pedaos de papelo e de tijolo eram colocados aqui e ali sobre a plvora para realar os detalhes do que se estava confabulando: a criao de uma obra de arte inspirada no Carnaval brasileiro, por meio dos estilhaos de uma exploso de verdade. Diante de uma plateia de crianas e velhinhas, a porta-voz do fabricante do explosivo esclareceu que ningum deveria temer a experincia  pois, ao contrrio do artefato que provocou a tragdia na boate Kiss, no Rio Grande do Sul, na semana passada, aquela plvora era prpria para uso em locais fechados. Mas, quando o artista botou fogo ao pavio, todo solene, foi um deus nos acuda: embora a exploso no tenha machucado ningum, produziram-se tantas labaredas e tanta fumaa que o pblico se assustou. Incendiria, em mais de um sentido,  a arte contempornea da China. Cai Guo-Qiang  cuja obra ser exibida a partir desta tera-feira no CCBB de Braslia, passando por So Paulo e Rio de Janeiro at o meio do ano  investe na acepo literal do termo: sua especialidade no ramo ficou conhecida com os shows de fogos de artifcio da Olimpada de Pequim, em 2008. No caso do conterrneo Ai Weiwei, tema de uma mostra de fotografias e vdeos que se inicia quinta-feira no Museu da Imagem e do Som (MIS) paulistano, o carter explosivo  figurado  mas mil vezes mais subversivo. Valendo-se da arte para a denncia poltica, Weiwei tornou-se incmodo para a ditadura comunista e vive sob vigilncia. Os brasileiros tero a chance de comparar os dois polos da arte chinesa atual: o tigre do contra versus o drago a favor do regime totalitrio.
     Com a ascenso da China como potncia econmica, o mundo passou a prestar ateno no seu tambm florescente cenrio das artes (um mercado que se supervalorizou nos ltimos anos, alis, graas ao apetite no s dos colecionadores estrangeiros, mas dos novos endinheirados locais). Guo-Qiang e Weiwei so os maiorais nessa terra de gigantes. Ambos tm 55 anos e pertencem  gerao que, na esteira da abertura econmica dos anos 80, rompeu com os ditames do realismo socialista, estilo inspido imposto at ento pelo governo aos museus e academias de arte. Os dois se formaram, igualmente, sob o impacto da Revoluo Cultural  o perodo de radicalizao ideolgica que produziu efeitos abominveis na vida dos chineses entre meados dos anos 60 e da dcada seguinte. Meu pai foi forado pelas autoridades a queimar sua biblioteca de literatura ocidental, disse Guo-Qiang a VEJA. Poeta famoso e crtico do regime, o pai de Weiwei enfrentou bocados piores: foi lanado no ocaso e exilado numa regio remota. Para alm da, contudo, suas trajetrias seguem rumos distintos. Embora s fale chins, Guo-Qiang mora em Nova York. Weiwei  fluente em ingls, mas vive na China.
     O trabalho de Guo-Qiang mostra quanto pode ser borrada a divisa que separa a arte admissvel daquela que pisa no calo do governo comunista. Assim como ocorre no cinema chins, ele no raro d um jeito de contrabandear para obras de tema ameno alguma dose de crtica social  mas a coisa  to oblqua que fica difcil de pescar. Na mostra, ele apresenta instalaes que se compem de invenes rudimentares feitas por camponeses. O homem pensa grande: h avies, submarinos, robs e at um porta-avies produzidos com essa sucata. O artista diz que pretende iluminar a realidade de pessoas que vivem  margem do progresso de seu pas. Muito, mas muito sutilmente, toca ainda em outro assunto que no agrada a um regime conhecido pelo desdm aos direitos humanos: a fora individual dos chineses.
     Ocorre que, na soma de seus prs e contras, a arte de Guo-Qiang acaba sendo inofensiva ou mesmo til para o governo comunista. Seus trabalhos so alegres, fceis de digerir at pela crianada e, mesmo que l no fundo haja uma pitadinha de crtica, funcionam, na prtica, como uma celebrao populista das razes chinesas. O ttulo da exposio, Da Vincis do Povo, lembra inclusive os rompantes adulatrios do realismo socialista. No clculo sempre pragmtico das autoridades chinesas, sua obra tem mais uma utilidade: demonstrar que o regime pratica a tolerncia para com seus crticos (s os crticos bonzinhos, claro). Tanto que o governo da China bancou a vinda dos camponeses-inventores para o Brasil. A mostra, frise-se,  financiada com mais de 5 milhes de reais, em sua maior parte em recursos de renncia fiscal de estatais controladas pelo governo federal brasileiro: enquanto o grosso dos trabalhos vai estar no CCBB, o prdio do Museu dos Correios em Braslia abrigar em seu topo uma instalao em forma de vni. Guo-Qiang  fixado em vida extraterrena: ao viajar pelo Brasil, no ano passado, quis conhecer Varginha, a cidade do famoso ET. Tambm visitou outra cidade mineira, Santo Antnio do Monte, onde se fabricam fogos de artifcio. De l vem a plvora usada em seu Carnaval explosivo. Nisso, como se viu na Olimpada, Guo-Qiang  um craque.
     Weiwei tambm trabalhou para o governo nos Jogos. Foi consultor na construo do estdio Ninho de Pssaro, mas rompeu com as autoridades e saiu atirando: acusou Guo-Qiang de criar um espetculo de propaganda do regime. H quem sustente que a participao de Weiwei no time que concebeu o estdio foi uma tentativa de domar um artista que j era indigesto.  fato que, no ano seguinte  Olimpada, o cerco se fechou sobre ele. Seu blog foi tirado do ar e, sob a acusao de evaso de impostos, ele teve sua liberdade restringida. Em alguns trabalhos. Weiwei  mais um ativista que um artista. Fotografias flagram as agresses que sofreu nas mos da polcia, assim como sua consequncia: ele teve de ser operado em virtude de uma hemorragia cerebral.
     Mas as imagens que preenchero trs andares do MIS atestam que, diferenas polticas  parte, Weiwei acaba sendo superior a Guo-Qiang como artista. Reiventando a arte conceitual dos anos 70 com uma roupagem atual, ele expe o que h por trs das aparncias  eis a fasca subversiva capaz de tirar o sono dos figures do Partido Comunista chins. No comeo dos anos 90, quando o massacre da Praa da Paz Celestial ainda estava fresco na memria do pas, ele fotografou uma namorada levantando o vestido e, num gesto insolente, exibindo-se de calcinha em frente a um famoso retrato de Mao Ts-tung. Em 2008, investigou os estragos do terremoto que abalou a regio de Sichuan  revelando que prdios pblicos como escolas e hospitais, construdos de forma precria, foram os mais atingidos. No trptico Quebrando um Vaso da Dinastia Han, ele surge lanando ao cho o que seria uma relquia de 2000 anos  um comentrio sobre o modo irresponsvel e autoritrio como o governo chins transforma as vilas e os bairros antigos em terra arrasada no af de erguer novas construes. Impressiona que Weiwei obtenha resultado to impactante recorrendo a um meio to banal e minimalista: uma cmera de celular.  a prova de que os grandes artistas conseguem ser incendirios sem apelar  pirotecnia.


2. CINEMA  CLICH RENOVADO
Em O Lado Bom da Vida, a receptividade e o compromisso dos atores fazem vibrar a histria dos desajustados que nasceram um para o outro.
ISABELA BOSCOV

     Diagnosticado como bipolar aps uma traumtica descoberta de traio conjugal, Pat Solitano, mesmo ao fim de oito meses numa instituio psiquitrica, tem uma energia manaca. Na interpretao calibrada e sincera de Bradley Cooper,  como se as reservas que as pessoas ss empregam em atividades salutares  manter-se receptivas aos relacionamentos, pensar racionalmente, realizar tarefas produtivas ou prazerosas  no encontrassem, em Pat, nenhuma forma definida na qual se manifestar: ele gera calor, mas este no se traduz em movimento. A ideia fixa de Pat  refazer seu casamento, muito embora sua ex-mulher tenha obtido contra ele uma ordem judicial de afastamento. De volta  casa dos pais, ele tem crises de raiva, bate a porta do quarto, acorda o pai e a me de madrugada com queixas absurdas. Est to enredado nos pensamentos que ficam dando voltas em sua cabea, enfim, que no enxerga o bvio mesmo quando este se pe debaixo do seu nariz: se h algum capaz de compreender o que ele est passando,  Tiffany, a jovem viva machucada e indignada que ele conhece em um jantar. Obvio, no caso de O Ludo Bom da WIa (Silver Linings Playbook, Estados Unidos, 2012), desde sexta-feira em cartaz no pas, no vem como sinnimo de banal  menos graas ao enredo, adaptado do romance homnimo do americano Matthew Quick (traduo de Alexandre Raposo; Intrnseca; 256 pginas; 24,90 reais ou 14,90 na verso digital), e mais em razo do talento do diretor David O. Russell para fazer escolhas felicssimas de elenco e ento tirar de seus atores interpretaes vibrantes e notavelmente comprometidas.
 previsvel que, a partir do momento em que Pat conhece Tiffany, o filme passe a se ocupar da dana entre os dois (literal, alis: o desfecho se d num concurso de dana de salo); o que no  comum nesse tipo de histria  a vivacidade e a reciprocidade com que Cooper e a maravilhosa Jennifer Lawrence se engajam nessa dana, como se cada passo que est por vir fosse inesperado tambm para eles prprios. Essas trajetrias de aproximao entre indivduos, e a potencial segunda chance a que elas conduzem, so a matria-prima predileta de David O. Russell nesta fase de sua carreira iniciada com O Vencedor, h dois anos. Antes notoriamente confrontativo (pegou-se de sopapos com George Clooney nas filmagens de Trs Reis, e no set de Huckabees  A Vida  uma Comdia perpetrou contra Lily Tomlin um ataque verbal que ficou clebre pela virulncia). Russell renasceu como um cineasta agregador, que se impe realar tanto quanto possvel os desempenhos.
     Em O Vencedor, dessa forma, Russell rendeu um Oscar para Christian Bale e outro para Melissa Leo. Em Lado Bom, concorrem, alm de Cooper e Jennifer, a australiana Jacki Weaver, que faz a me de Pat, e o ator revelao do filme: Robert De Niro. Desde 1995, quando fez Cassino com Martin Scorsese, ningum o via trabalhar  s comparecer ao emprego. E, no entanto, De Niro aqui est presente em corpo e esprito em cada cena que tem no papel do pai de Pat, reagindo aos outros atores de momento, sem rede de segurana nem muito menos sinal daquela cara de tdio que vinha exibindo nos ltimos anos. Constatar que h algum capaz de um feito dessa magnitude , de fato, uma daquelas coisas que tm de ser elencadas no lado bom da vida.

As indicaes
* Filme
* Direo  David O. Russel
* Ator  Bradley Cooper
* Atriz  Jennifer Lawrence
* Ator coadjuvante  Robert De Niro
* Atriz coadjuvante  Jacki Weaver
* Roteiro adaptado
* Direo  David O. Russell
* Montagem


3. LIVROS  O HOMEM CERTO, AT NO LUGAR ERRADO
Ler o Brasil descrito pelo americano John dos Passos em trs viagens, em 1948, 1958 e 1962,  como ver um documentrio que prescinde de som e imagem.
AUGUSTO NUNES

     Em 1948, os editores da revista Life contrataram o jornalista e escritor John dos Passos para saber como andavam as coisas no imenso groto sul-americano que parecia ter localizado a trilha que leva para longe das cavernas. Aos 52 anos, ele figurava no primeirssimo time da imprensa desde a cobertura da Guerra Civil Espanhola, e os livros j publicados no demorariam a inclu-lo entre os principais romancistas do sculo XX. Foi a primeira incurso de Passos pelo pas, que voltaria a visitar em 1958 e 1962. A reedio de O Brasil em Movimento (traduo de Magda Lopes: Benvir; 290 paginas: 39,90 reais), lanado em 1964, comprova que o reprter da Life era o homem certo no lugar onde, at ento, tudo parecia dar errado. As anotaes feitas durante as trs viagens desdobraram-se em textos que compem mais que uma grande reportagem. Trata-se de um documentrio que prescinde de som e imagem. Quem recua no tempo em companhia de John dos Passos v e ouve o que l.
     O livro estaria destinado  estante das leituras indispensveis se John dos Passos no fosse trado pela traduo (que, entre outros pecados, polui todos os pargrafos com pronomes possessivos sem serventia) e se no tivesse sucumbido  tentao de explicar o inexplicvel. O Brasil no  para amadores, ensinou Tom Jobim. Nem para profissionais, sugerem as incontveis tentativas de enxergar alguma lgica no cortejo de maluquices inaugurado pela chegada das primeiras caravelas. Leitores e autor sairiam ganhando se fossem guardados para um livro de fico os pargrafos que resumem as origens do pas ou recordam acontecimentos histricos.  comovente o esforo empreendido por um americano de Chicago para decifrar enigmas que o impedem de desfrutar sem interrogaes o caso de amor  primeira vista.
     Rendido  hospitalidade loquaz dos nativos, aos exotismos e aos deslumbramentos do pas em construo, o forasteiro habituado a ver as coisas como as coisas so faz o que pode para evocar sem um ponto de exclamao a cada linha a saga sem similares. Como reconhece o mais patriota dos historiadores, o Brasil nasceu por engano, virou Terra de Santa Cruz depois que se constatou que era muito litoral para uma ilha s, passou quase 200 anos na praia antes de animar-se a escalar o paredo que separava o mar do outro lado da mata, teve como primeira e nica rainha Maria, a Louca, acolheu o filho da doida de hospcio que roubou a matriz na vinda e a colnia na volta e instalou no trono um menino de 5 anos que, sem pai nem me, seria promovido a av da nao. No  pouco. E no  tudo.
     John dos Passos no  um entendido em Brasil.  possvel que no haja nenhum. Em contrapartida, entende de gente como poucos. O jornalista em ao na Espanha no contou nada de novo sobre a gestao da guerra civil, mas precisou de poucas linhas para eternizar personagens do conflito. Foi assim no Brasil. Em todos os encontros com as figuras da terra, bastavam a Passos alguns minutos de conversa para enxergar no interlocutor um trao louvvel ou um defeito de fabricao. E uma ligeira mirada nas coisas da terra  a vermelhido do solo do noroeste do Paran, os matizes de verde da Baa de Guanabara  era suficiente para o olhar que fazia as vezes de cmera.
     Viajante compulsivo, Passos viu de perto a Amaznia intocada desde o Dia da Criao, o incio da extrao de minrio de ferro no Vale do Rio Doce, o Brasil Central saindo da infncia, o Nordeste dos coronis que governavam as urnas, o Paran invadido por colonizadores paulistas. Aprendeu a dormir em hotis repulsivos, a beber cafezinho o dia inteiro e a gostar de arroz com feijo. Descobriu que vastides territoriais sobreviviam sem latrinas, hospitais nem mdicos ao cerco das doenas desaparecidas havia dcadas do circuito frequentado por americanos cosmopolitas. E, sobretudo, conversou. Conversou com gente da rua e com gente destinada a virar nome de rua. Nada lhe pareceu to fantstico quanto o parto de Braslia. Nenhum agrupamento humano lhe pareceu mais interessante que a tribo formada pelos inventores da nova capital. 
S depois de conversar com Oscar Niemeyer por algum tempo comecei a perceber que, aquele homem pequeno, tmido, com olhos desconfiados, tinha uma firmeza robusta de pedreiro, lembra. Parecia que as palavras saam direto do corao. Ele era desprovido de ambiguidades. O registro elogioso contrasta com a m impresso causada por conhecidos produtos da grife Niemeyer. Num jantar, endossou em silncio o parecer da anfitri: Ele no  arquiteto de jeito nenhum.  um escultor que trabalha com materiais de construo. Se o Brasil no canonizasse seus mortos famosos antes que o velrio comece, o obiturio de Niemeyer teria includo o trecho que descreve o Palcio da Alvorada:  um prdio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de guas claras. As divises internas tambm so de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta.
     Dai-me um reprter que seja ao menos parecido com este, deveria implorar todo chefe de redao ao estacionar no ponto final. A sorte  que poucos leitores lembram que uma reportagem pode ser assim.

A CAPITAL EM CONSTRUO - Visitar Braslia foi como visitar Pompeia, mas ao contrrio. Em vez de imaginar a vida que existiu 2000 anos atrs, vamo-nos imaginando a vida que haveria ali dez anos depois.

AS AMBIES DE CARLOS LACERDA - O governador da Guanabara gostaria de fazer outras coisas, alm de brigar com comunistas e simpatizantes. Gostaria de ter tempo de escrever um romance. Gostaria de ser ministro da Educao numa administrao federal na qual confiasse, ou embaixador em Washington. Ele acha que conhece Washington suficientemente bem para ir alm dos eruditos e dos colunistas sabe-tudo e explicar o Brasil para o povo americano.

BERNARDO SAYO, O DESBRAVADOR - Os burocratas da capital no conseguiam entender um homem que trabalhava por prazer (...). Sua obsesso era construir estradas. (...) Vivia em seu carro da mesma maneira que os pioneiros de antigamente viviam no lombo de um cavalo.

A PRIMEIRA IMPRESSO SOBRE JK - Quando o presidente entrou com passos geis, acompanhando o chefe do Cerimonial, parecia to deslocado quanto os visitantes em meio aos esplendores afrancesados do Palcio das Laranjeiras. Havia certo jeito de cidade pequena nas roupas que usava. (...) Descreveu um mapa do Brasil to claramente que eu quase podia v-lo na parede, atrs do piano dourado.

AS ORIGENS DA GRANDE REPORTAGEM
     Quando as ondas do rdio eram o maior meio de comunicao no pas e no havia televiso, as imagens dos grandes acontecimentos do Brasil e do mundo eram a principal atrao de O Cruzeiro, a revista semanal que em seu auge atingiu uma tiragem de 700.000 exemplares  para uma populao de 50 milhes de brasileiros. Lanada em 1928 pelo empresrio de comunicao Assis Chateaubriand, ela se firmou como publicao de peso e grande credibilidade a partir dos anos 40, ao adotar o modelo da fotorreportagem praticado em revistas americanas e europeias. Foi a pioneira do gnero no Brasil, estabelecendo as bases e regras do fotojornalismo nacional e formando sua primeira gerao de profissionais.  esse o painel histrico apresentado no livro As Origens do Fotojornalismo no Brasil: um Olhar sobre O Cruzeiro (organizao de Helouise Costa e Sergio Burgi; IMS; 335 pginas; 140 reais).
     Desdobramento da exposio homnima, que permanece em cartaz at 31 de maro no Instituto Moreira Salles, em So Paulo, o livro abrange o perodo entre 1940 e 1960  tempo de grandes e rpidas transformaes nacionais, entre a ditadura do Estado Novo e a fundao de Braslia. As fotos, em preto e branco, so assinadas por nomes histricos como Jean Manzon, Peter Scheier, Pierre Verger, Indalcio Wanderley e Luiz Carlos Barreto, entre outros. Registram o encontro dos irmos Villas-Bas com os ndios do Alto Xingu, a inaugurao do Masp, os polticos da poca, o povo nas ruas, os acontecimentos internacionais  como a Guerra da Coreia e o casamento do prncipe Rainier de Mnaco com Grace Kelly  e, claro, futebol e Carnaval. Os textos estabelecem a evoluo do foto-jornalismo nacional, citando inclusive os embates entre a esttica conservadora e posada de Jean Manzon e os instantneos geis e participativos de jovens fotgrafos como Jos Medeiros e Luciano Carneiro. Tambm so exploradas questes editoriais  a garota da capa, os faits divers (destaques que ficam entre o banal e o sensacionalismo) e a charge. H ainda uma apreciao comparativa da publicao com as matrizes internacionais da poca, a americana Life e a francesa Paris Match. Ao fazer um caminho indito na imprensa brasileira, O Cruzeiro deixou uma trilha que se segue at hoje. Sua histria, portanto, provoca uma reflexo que permanece atual e oportuna.
MARIO MENDES


4. VEJA RECOMENDA
CINEMA
O VOO (FLIGHT, ESTADOS UNIDOS, 2012. ESTREIA NESTA SEXTA-FEIRA NO PAS)
 Em uma prolongada e decididamente espetacular sequncia de ao que vai escalando durante quase toda a primeira meia hora de filme, o comandante Whip Whitaker (Denzel Washington, indicado ao Oscar pelo papel) consegue fazer um miraculoso pouso forado com um avio avariado, salvando 96 das 102 vidas a bordo (a sequncia contm algumas improbabilidades aerodinmicas e de procedimento, mas quem se importa?). Whitaker sai do acidente com alguns ferimentos e reputao de heri. A qual, no entanto, logo comear a ruir, primeiro lentamente e depois de forma precipitosa: Whip no s  dependente de lcool e drogas, o que conseguiu esconder com sucesso razovel durante toda a carreira, como estava sob efeito de bebida e cocana durante o voo malfadado  e, por mais que os advogados da companhia area e do sindicato tentem, esse  um dado que fica difcil ocultar quando o sujeito prossegue na bebedeira. Do incio cheio de som e tenso, ento, o diretor Robert Zemeckis passa para um estudo de personagem: quanto  preciso para que uma pessoa se d conta de que  destrutiva. Pena, mas pena mesmo, que a ltima impresso deixada pelo filme seja a do desfecho embaraosamente piegas.

LIVROS
A PORTA, DE MARGARET ATWOOD (TRADUO DE ADRIANA LISBOA; ROCCO; 128 PGINAS; 24,50 REAIS)
 No romance O Assassino Cego, que lhe rendeu o Booker Prize, em 2000, a canadense Margaret Atwood estabeleceu um estilo de narrativa em camadas que se sobrepem (como panquecas, sugeriu um crtico mais irascvel do The New York Times). Aos 72 anos, ela  uma das mais prolficas autoras da atualidade e, alm da fico, se exercita em versos. Os poemas de A Porta (seu primeiro trabalho do gnero traduzido no Brasil) foram publicados em 2007 e apresentam a superposio como forma recorrente. Os sentimentos evocados pelas estaes do ano, sabores e aromas da infncia, reminiscncias da II Guerra, a aparente harmonia familiar, a velhice e os animais de estimao  em atenta observao dos seres humanos  so apresentados como escritos esparsos que se empilham. Apesar das questes polticas e ambientais que lhe so to caras, a autora se sai melhor na despretenso: uma conversa a dois, a arrumao de uma casa de bonecas, consideraes sobre uma camiseta branca de algodo. Breves momentos em que a sutileza potica se faz necessria.

AS AGRURAS DO VERDADEIRO TIRA, DE ROBERTO BOLAO (TRADUO DE LUIZ EDUARDO BRANDO; COMPANHIA DAS LETRAS; 320 PGINAS; 44,50 REAIS)
 Morto em 2003, aos 50 anos, o chileno Roberto Bolao deixou uma carta escrita em 1995. Romance: h anos trabalho em um, que  meu. O protagonista  um vivo, 50 anos, filha de 17, que vai viver em Santa Tereza, cidade prxima da fronteira com os Estados Unidos. Oitocentas mil pginas, um enredo louco que no h quem entenda. Est se falando de As Agruras do Verdadeiro Tira, obra postumamente publicada  que, escrita em prosa de clareza notvel, nada tem de incompreensvel. Amalfitano, professor universitrio cuja presena  marcante em 2666, se envolve com um aluno, e o escndalo na instituio onde leciona faz com que ele se mude para uma faculdade mexicana. Nesse cenrio novo e um tanto esquisito, Amalfitano passa a refletir sobre a revelao tardia de sua homossexualidade  mas no deixa de ter um novo caso amoroso. Mesmo sem Bolao ter colocado um ponto final no romance (ele foi montado a partir de arquivos deixados no computador e pginas datilografadas), esta  uma obra completa e ntegra do mais inventivo autor latino-americano de sua gerao.

DISCOS
O HBITO DA FORA, FILARMNICA DE PASRGADA (COAXO DO SAPO/TRATORE)
 A Filarmnica de Pasrgada surgiu em 2008 entre estudantes de msica da Universidade de So Paulo. Aps um rito de passagem por festivais de MPB (em que ganhou prmios com a cano Seu Tipo), ela chega ao disco de estreia. A influncia bvia  a vanguarda paulistana, presente nos vocais agudos da cantora Paula Mirhan e na presena de Luiz Tatit e N Ozzetti, do extinto grupo Rumo, na j citada Seu Tipo. Mas no seria justo limitar a Filarmnica a um gnero ou a um movimento. Seus integrantes so adeptos de uma geleia geral que vai do uso do fagote (Raquel Rojas d um show particular em Por um Fio)  insero de Li Vie en Rose, de Edith Piaf, e Depois do Prazer, do S pra Contrariar, numa mesma composio (Quem Procura). H tambm espao para ideias criativas, como a participao da rapper paulistana Lurdez da Luz lendo trechos de A Histria Social da Msica Popular Brasileira, do crtico e estudioso Jos Ramos Tinhoro, em Enfartando Tinhoro. Nem tudo  experimentalismo: Marcelo Segreto, compositor oficial do grupo, cria tambm msicas de apelo radiofnico, como Plano B e a balada Fora do Ar.

PARKLIVE, BLUR(EMI)
 Momentos antes de interpretar London Loves, segunda faixa de Parklive, o vocalista Damon Albarn diz ao pblico que sua banda ama a capital inglesa. No se trata de um elogio pro forma. O Blur foi o mais britnico entre os artistas do britpop, movimento que floresceu na dcada de 90. Suas composies trazem ecos de Kinks e The Who e falam de aspectos tpicos do pas, como as casas no campo (em Country House) e aquela camada mais sedentria e cervejeira da classe trabalhadora (Parklife). Essa opo prejudicou a ascenso do Blur em pases como os Estados Unidos, que preferiram o rock bsico e a insolncia do Oasis. Em compensao, na Inglaterra eles reinam soberanos. Parklive foi gravado no dia do encerramento da Olimpada de Londres, em que o Blur se destacou em meio a outras joias da coroa como o New Order e o grupo de ska The Specials. To bom quanto escutar a execuo primorosa de hits como Girls & Boys e End of the Century  perceber a maneira como o grupo interage com a plateia. Em Song 2, por exemplo, ela grita o refro to alto que apaga a voz de Albarn.


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA
5. Finale  Becca Fitzpatrick. INTRNSECA
6. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA
7. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
8. A Travessia  William Young. 
9. As Vantagens de Ser Invisvel  Stephen Chobosky. ROCCO
10.   o Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA

NO FICO
1. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
2. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR
5. Catarina, a Grande: Retrato de uma Mulher  Robert K. Massie. ROCCO
6. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA 
7. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
8. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
9. Cozinha de Estar  Rita  Lobo. PARALELA
10. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
2. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
3. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 
4. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA
5. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Viver com F  Cissa Guimares. CASA DA PALAVRA
8. Manual dos Jovens Estressados  Augusto Cury. PLANETA
9. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE
10. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti. AGIR


6. J.R. GUZZO  UM CASO PERDIDO
     No h rigorosamente mais nada de til que possa ser dito a respeito do deputado federal Henrique Alves, candidato oficial do governo e do PT  presidncia da Cmara dos Deputados. Em pleno ano de 2013 da era crist, Alves foi considerado pelas foras que mandam hoje no pas como o homem ideal para dirigir um dos trs poderes da Repblica  justo ele, Henriquinho, que em onze mandatos e 42 anos de casa construiu uma biografia impecvel como agente de tudo o que existe de mais atrasado na poltica brasileira. O deputado, em si mesmo, vale por um gnero inteiro: o dos profissionais que se mantm nos galhos mais altos da vida pblica, gerao aps gerao, servindo-se da pobreza, da ignorncia e dos vcios sociais que envenenam o Brasil desde os tempos do imperador. Nas vsperas da eleio, coerente com seus hbitos de vida, estava outra vez metido em confuso  agora, numa miservel embrulhada com dinheiro pblico, seu principal assessor e uma empreiteira de obras, que ficar na crnica como o caso do bode Galeguinho. Chega? Chega. No h mais nada a dizer, realmente, sobre esse novo gigante da classe trabalhadora. Em compensao, h muito a dizer sobre o PT.
     O partido fundado pelo ex-presidente Lula foi uma nova fora na poltica brasileira de trinta anos atrs. Talvez houvesse a, pela primeira vez, um alerta para os aproveitadores, demagogos e senhores de engenho, rurais ou urbanos, que sempre exploraram o Brasil como um negcio pessoal e jamais admitem mudana alguma para melhor. A esperana durou pouco. Comeou a se desmanchar quando o PT ganhou suas primeiras prefeituras e descobriu algo chamado Errio. Vinte anos depois, quando o partido chegou enfim  Presidncia da Repblica, j tinha ido tudo para o diabo. Antes mesmo de tomar posse em 2003 o presidente operrio e sua tropa casaram no civil e no religioso com o tipo de gente que mais combatiam. O objetivo seria amansar os inimigos. O resultado prtico  que acabaram ficando iguais a eles.
     Os petistas mais espertos, e so muitos, descobriram com grande rapidez as oportunidades pessoais oferecidas pelo Brasil velho que prometiam mudar. Desde ento, no pararam mais de caar empregos e vantagens para si prprios e seus familiares. Gente com mais ambio farejou logo a grande mina dos conselhos de estatais e fundos de penso controlados pelo governo  rolam bilhes a. Aprenderam a traficar com licenas para emissoras de rdio e TV, montar ONGs que recebem dinheiro do Tesouro e fechar excelentes negcios no mercado de prestao de servios;  todo um mundo de empresas que pertencem a esposas ou maridos, ex-esposas ou ex-maridos, amigos dos amigos e por a afora, empenhadas dia e noite em vender alguma coisa para o governo. A mistura entre negcios privados e canetas pblicas tornou-se procedimento-padro. Um filho do prprio Lula recebeu 5 milhes de reais de uma empresa interessada em realizar negcios que dependiam da assinatura de seu pai, em troca de aes na sua companhia de videogames  que jamais mostrou resultado algum capaz de justificar um investimento desse tamanho. (As ltimas notcias dizem que est  beira da falncia, devendo mais de 6 milhes de reais na praa.)
     Hoje o PT  apenas o partido do homem-cueca, dos bebs de Rosemary e do bode Galeguinho. Virou o beneficirio nmero 1 das doaes feitas pelas empreiteiras de obras. Em todos os escndalos de corrupo dos ltimos dez anos, assumiu automaticamente a defesa dos acusados. Est 100% ao lado de Henriquinho, Fernando Collor e Paulo Maluf. Ficar marcado para sempre pela concordata moral do mensalo, que se tornou um ponto central na biografia de Lula e despedaou a reputao de Jos Genoino, um dos ltimos smbolos do PT que existiu um dia  e que hoje  deputado com uma sentena de priso nas costas. Ningum falou mais claro sobre esse mergulho na decadncia do que o ex-governador gacho e petista de raiz Olvio Dutra. Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetria que tens dentro do partido, recomendou ele a Genoino. Eu acho que tu deverias renunciar. Nada que a direita disse, em anos de ataque ao PT, foi to arrasador.
     O que se ouviu, a, foi a voz da conscincia. O PT valeu enquanto foi jovem; hoje  um caso perdido. Como nos mostra o personagem Chance Wayne, de Tennessee Williams, em geral no vale a pena fazer viagens para reencontrar o doce pssaro da juventude.  pouco provvel que esteja onde o procuramos  e talvez seja melhor no encontrar o que sobrou dele.


